Por Paulinho do Boi
Amigo leitor, alunos, seguidores, simpatizantes, todos.
Reivindico o trecho musical de Lenine para lhes pedir um pouco mais “Paciência” na leitura que segue. Não é fácil, enquanto artista, diretor e professor de teatro, discorrer sobre o trabalho cênico da própria filha. Principalmente quando me posiciono como aluno da mesma, vivendo cada detalhe de sua evolução teatral.
Pois bem, a pouco mais de três anos, Clarice Rodrigues anunciou sua vontade, já acompanhada da decisão, de escrever e encenar um monólogo. O entusiasmo de minha filha veio acompanhado de uma boa dose de razão e aconselhamentos de um pai, artista. Debates necessários em volta do sim. As perguntas básicas foram impressas no espírito do diálogo: O que? Como? Quando? Porque? Onde?
Por incrível que pareça, as respostas já estavam em posse da atriz. Respirei e vi fluir o brilho da vontade de Clarice a favor de um planejamento detalhado em uma pesquisa, já realizada por ela, extraída de um diário escrito por uma enfermeira que trabalhou em um dos pavilhões do Hospital Colônia de Barbacena, Minas Gerais.
Não me envolvi mais a partir daí. Explico. A técnica teatral envolvida não faz parte da linguagem que adoto para os meus trabalhos em teatro popular. O convite para o ator, palhaço e diretor Luan Silva – SP, surgiu naturalmente. A estreia, no próximo dia 17 de maio, é possibilitada pela lei Aldir Blanc – PNAB Sete Lagoas. Diga-se de passagem, é muito bom termos uma política nacional de cultura viabilizada pela prefeitura municipal de Sete Lagoas. O ambiente e a ambiência cênica proposta pela dramaturgia me arrancaram suspiros, acompanhados de lágrimas…
Não dá para deixar a história no passado como se nada tivesse acontecido.
Assisti, no último dia 14, a um ensaio técnico no Quintal. Luz e cenários desenhados por Lari de Souza, cinotécnica confeccionada por mim e direção do Luan Silva. Ajustes finais e todos nós, colocados na plateia, na expectativa do resultado. Presenciei Dora, a enfermeira, retratando sua labuta diária na rotina do sanatório em meados do século XX. Ao centro da cena um baú de memórias sendo puxado e aberto, expondo fatos e nos transportando para o pavilhão “Zoroastro Passos” do hospital Colônia.
Bem ao lado fomos conduzidos para a casinha simples da enfermeira que nos oferece um “cafezim” enquanto relata suas memórias. No canto direito a janela do adro de entrada do hospício nos tira o fôlego, fazendo-nos refletir sobre o que acontecia lá dentro daquele local.
O jogo cênico proposto pela atriz, afinado pela direção, vira um misto de emoções fortes que são sustentadas por reflexões profundas da história que a história não conta, bem como, sobre o tratamento remetido à saúde mental. Tanto naqueles tempos, quanto na atualidade. Não dá para deixar a história no passado como se nada tivesse acontecido.
O espetáculo Canção da Barbárie é mais do que um espetáculo. Trata-se de um convite ao cerne existencial de nosso povo, muito em especial às nossas Minas Gerais.
Você já ouviu falar no Trem de Loucos? Não dá para fazer de conta que não aconteceu.
Não dá para fingir que tudo isso é normal…