Frankenstein (2025 – Guillermo Del Toro)

A estória de um “monstro” feito de pedaços de cadáveres reanimado por um médico/cientista obcecado por criar a vida. Desde 1816, quando a então adolescente Mary Shelley escreveu Frankenstein, motivada por um desafio de Lord Byron, essa estória não apenas se tornou uma das mais conhecidas do gênero horror, mas se tornou mesmo um tropo deste:

Jacob Elordi é o “Monstro” – Divulgação

Quando soube que mais uma versão deste livro seria produzida, cuja primeira aparição nas telas se deu ainda em 1910 e vem somando até o momento quase 440 adaptações fílmicas (sem contar curtas metragens e aparições em séries de TV), obviamente não esperava muita coisa além de mais uma versão “quasi-Marvel” para as gerações mais jovens, nem sempre interessadas na pesquisa pelo que veio antes. O ponto interessante era o nome de Guillermo Del Toro, o espanhol que, assim como Tim Burton antes, conseguiu desenvolver uma espécie de “estilo cine-narrativo próprio” pelo qual seus filmes são reconhecidos, sempre com algum elemento soturno e subtextos por vezes óbvios, por vezes nem tanto.

Lançado em alguns cinemas selecionados no último 23 de outubro e desde o dia 7 de novembro disponível exclusivamente na Netflix, a partir da primeira cena Frankenstein se mostra diferente de seus predecessores: direto, extremamente bem produzido, visualmente exuberante (ainda que goticamente escuro e… soturno), além de apresentar atuações muito acima da média (especialmente dos protagonistas Oscar Isaac -Victor Frankenstein – e Jacob Elordi – “O Monstro”, ou “A Criatura”. O filme ainda conta com nomes fortes do cinema atual como Christoph Waltz, Mia Goth, Charles Dance e David Bradley).

Um dos grandes receios, quase sempre profecias autorrealizáveis das adaptações fílmicas de textos clássicos é o da traição deste texto original por parte de diretores e roteiristas, mas não é o que acontece aqui: Del Toro notavelmente é não só extremamente fiel ao original de Mary Shelley como reforça muitas das situações utilizando a tecnologia e os recursos atuais a seu favor: desde os visuais estonteantes e cenários estilizados de época construídos especificamente até o gore explícito quando este se torna necessário enquanto acento narrativo visual.

Frankenstein nunca foi a estória de um “monstro” e seu criador. Frankenstein sempre foi uma alegoria sobre a inadequação humana, a dúvida pessoal, a rejeição social e a busca por aceitação de um grupo do qual um indivíduo crê ser parte.

Um dos filmes necessários de 2025, um épico gótico no qual, durante 2 horas e 32 minutos divididas em 3 partes/atos distintos mas ligados de maneira integrada, assistimos às motivações do médico para agir como age; a criação bizarra do “monstro”; sua rejeição; sua busca pelo “pai”; e sua posterior revolta incontrolável ao não compreender o porquê da rejeição deste, o que culminará num inevitável confronto, Frankenstein nunca foi a estória de um “monstro” e seu criador. Frankenstein sempre foi uma alegoria sobre a inadequação humana, a dúvida pessoal, a rejeição social e a busca por aceitação de um grupo do qual um indivíduo crê ser parte. Busca essa quase sempre infeliz e infrutífera.

Veja Mais