O artista plástico contemporâneo Renan Florindo, de 36 anos, esteve entre os destaques do
estande do Governo de Minas Gerais na 37ª edição da Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado
As obras são esculturas de corações realistas, porém, com detalhes que transmitem seus sentimentos, ideias, pensamentos e percepções mais íntimos. Na Festuris, por exemplo, Florindo apresentou peças que transmitiam “mineiridade”, como aquela inspirada na lobeira, planta que dá a fruta-do-lobo, e é um símbolo do Cerrado.
Também foi exibido o coração colocado em um oratório, o que possuía uma jabuticabeira brotando de si e a interatividade do “Coração em Branco”, onde as pessoas puderam personalizar uma obra com cores, traços e emoções próprias.
O artista mostra suas obras e processo criativo em seu
Instagram pessoal
Origens e inspiração
Renan é capixaba, nascido em Iúna, município localizado na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, porém vive em terras mineiras desde 2013. Seu pai é capixaba e sua mãe mineira.
Atualmente, Florindo é morador de Brumadinho, na Grande BH, para onde se mudou em 2021. O artista contou o processo que levou ao batismo de seu trabalho e explicou no que consistem suas obras, que bebem de sua formação acadêmica: a Farmácia.
“É uma brincadeira com o meu sobrenome, Florindo Amorim. E nas minhas andanças por Minas, fui descobrindo que Florim foi a primeira moeda do Brasil, então acho que tem tudo a ver com essa questão da mineiridade e o meu trabalho também, foi um nome que se encaixou perfeitamente”, contou.
E foi além:
“Meu trabalho é uma fusão de arte e ciência. Eu tenho uma formação acadêmica em Farmácia, pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Em Minas Gerais, fiz mestrado em neurociências, e trouxe muito dessa questão mais metódica do laboratório da Universidade para a arte.
E, ao mesmo tempo, trazendo toda essa bagagem do entorno, de vida, os passeios, a contemplação que eu posso fazer em Minas Gerais, trazendo todos esses elementos da natureza para o coração e, com isso, criar uma simbiose entre humano e vegetal, ambiente, arte, ciência”, explica Florindo.
Renan busca, também, uma retomada do trabalho manual e simbólico.
“Quero trazer uma arte que seja simbólica para a casa das pessoas que apreciam isso. Elas que estão deixando cada vez mais de lado o produzido de forma industrial, autônoma, automática, e buscando um trabalho mais manual, com simbolismo e com significado”, completa ele.
O símbolo do coração
Renan Florindo iniciou a produção dos corações em 2014, porém, de forma mais tímida. E os onze anos de confecção ficam mais curtos quando ele revela que sua atuação nas artes plásticas, em modelagem, começam muito antes, quando tinha apenas quatro anos.
“Tenho memórias a partir dos sete anos, de fazer as modelagens, criar as peças. E chegou um momento em que eu quis transformar todo esse trabalho em uma arte mais autoral. Então, tento resgatar esse símbolo, o coração, não de uma forma apenas romântica, como ele foi colocado de séculos pra cá, mas trazendo uma versão um pouco mais anatômica, mais para a realidade, mas, ao mesmo tempo, trazendo a poesia da parte botânica junto dessas peças”, explica.
Florindo conta que o início do projeto com os corações se deu em um momento de incertezas e que a obra da pintora mexicana Frida Kahlo o inspirou.
“Foi um momento de reflexão. Eu sempre gosto de brincar que conheci a Frida Kahlo muito tardiamente. Descobrir a potência do trabalho dela de 2013 para 2014. Gosto muito da cultura mexicana, de como eles ressignificam a morte, como trazem isso para o dia a dia e uma coisa que era muito presente no trabalho da Frida são os corações, o sagrado coração e aquilo ali me chamou muito a atenção”, começou ele.
E continuou.
“Quando comecei, foi muito tímido, fazendo um pingente, um coração que eu colocava numa plaquinha, escrevia uma frase e deixava na geladeira, mas de uma forma bem despretensiosa. Então, fui entendendo que o coração é um símbolo universal e muitas pessoas compraram essa ideia, gostaram, e com o passar dos anos fui melhorando o formato da modelagem, da escultura, e acabei entrando para um coletivo de artes do Libertas, em Belo Horizonte”, prosseguiu Florindo.
A experiência do “Coração em Branco”, apresentada em Gramado, foi desenvolvida após ele se mudar para Brumadinho, quando conheceu o projeto Destino Veredas.
“O símbolo do coração pode remeter ao apaixonado, ao amor romântico, mas também tem esse outro simbolismo, uma voz interna que traz conhecimento, de repente, o norte”, avalia.
Corações ‘mineiros’
O artista contou, ainda, sobre as obras escolhidas para serem exibidas no estande mineiro da Festuris Gramado 2025. Segundo Florindo, ele buscou exibir corações que trouxesse a “raiz mineira”.
Um coração no oratório: “Minas é muito reconhecido pela religiosidade e a arte tem esse papel de trazer uma reflexão, um incômodo, não só o belo. Esse coração tem pregos, sangue, é um pouco mais intenso, e traz essa reflexão. Assim como o Guimarães Rosa fala que viver é um rasgar-se e remendar-se, tenho uma peça assim também, e trago esses autores mineiros. Ele é de Cordisburgo, que é terra do coração. Então, isso tudo vai entrelaçando assim com o meu trabalho”.
O coração jabuticabeira: “Ele traz essa carga enorme de memória afetiva da família, dos quintais, dos avós”.
O coração com a lobeira: “É uma planta do nosso cerrado, muito importante para a alimentação do lobo-guará, para a manutenção da nossa fauna. E essa simbiose que o coração mostra entre o humano e o reino vegetal, se mostra também no lobo-guará, pois a lobeira o alimenta e ele faz esse papel de dispersão. Os dois se ajudam e têm uma coexistência de benefício mútuo”.
“Trouxe esses elementos justamente para mostrar esse ponto de observação, de calma, de contemplação. Minas Gerais nos convida a caminhar por ela, a conhecer”, finalizou Renan Florindo.