Fé, comunismo, capitalismo: é tudo negócio

Em tempos como os nossos, está todo mundo preocupado em ganhar e vender. Nem a religião está imune a isso. Aliás, isso é coisa antiga. Basta ver a indignação de Jesus com os vendilhões do tempo.

Só que hoje, mais do que nunca, “crença” é questão de negócio. Mas calma, antes que afoitamente se critique os padres e os pastores (os que, aliás, merecemos muitas críticas), nos atenhamos a indagações mais profundas.

Terminamos nossa última coluna destacando a relação que existe entre a fixação contemporâneo pelo sucesso e a “fé”. Com certa dose de ironia e com o devido respeito ecumênico, o que Igreja Católica derreteu de ouro na Contra Reforma, fazendo o deslumbramento do Barroco tingir de dourado os principais aspectos do catolicismo, foi levado à máxima potência por certos ramos protestantes, ao fazer da pregação de muitos cultos um grande roteiro de empreendedorismo.

Vigiem-se os ossos da tumba de Lutero. Nem os Medici chegaram tão longe. Os papas da renascença “vendiam” o céu.

Hoje se negocia, aqui na terra mesmo, o próprio paraíso

Padre Samuel Fidelis

Filhos do catolicismo

O protestantismo é filho do catolicismo. Ele é fruto de um anseio interno por mudanças, é o resultado da negligência de um indivíduo moderno emergente, que assumiu a dúvida como ponto de partida (Descartes), que se permitiu a incerteza de “ser ou não ser” (Shakespeare).

Por sua vez, o capitalismo é filho do protestantismo. Assim faz notar Weber: ao incentivar o acúmulo, ao indicar que a riqueza é uma bênção divina (ignorando como Jesus alerta em Lucas, sobretudo, que ter bens pode ser, na verdade, o indício de uma maldição Lc 12, 13-21, parêntese nosso). A tradição protestante ara o terreno para o surgimento da mentalidade empreendedora do capitalismo.

Mas calma. Como dito acima, antes que alguém comece a atirar pedras nessa “família”, quem se vangloria de não pagar o dízimo, seja honesto analisando a própria fatura. Quem se diz anticapitalista ou livre dos desatinos de qualquer “crença limitante”, que se examine.

Compra por propósito

Se não houver o CNPJ de uma igreja no extrato bancário, estará certamente o de algo que se adquiriu em nome de alguma causa, propósito ou sentido vendidos por aí, na busca de uma paraíso para chamar de seu. Diversamente do marketing de alguns anos, em que se comprava propósito através de produto, hoje, se compra produto por causa de propósito. E há muita gente lucrando com isso.

Para cada ataque histérico sobre quão “reacionário” é ter filhos, se abre mais um pet shop com seus lacinhos. Para cada crítica sobre “um mundo tão desigual”, há um mercado elitista e cult de veganismo. Para cada carro híbrido, há um novo projeto de usina hidrelétrica, pilhas de carvão ou de lixo radioativo.

Fé é business, veganismo é business, comunismo é business, capitalismo é business, anticapitalismo é business. Tudo, ao fim e ao cabo, termina sendo marketing e marca. As empresas, com seus “valores” e posicionamento, vendem “propósito”. Nós, hoje, compramos, consumimos e somos enganados em nome de “propósitos”.

Lucro pela busca do sentido

Têm gente lucrando muito com essa nossa sede por sentido, direção e propósito. Estamos nos deixando vender. Vendidos estamos por qualquer preço, na verdade.

E, o pior: andamos com a impressão de que quem consome propósitos diferentes dos nossos é que está sendo enganado. Ledo engano: fé é negócio, capitalismo é negócio, anti-capitalismo é negócio. É tudo questão da preferência pelo produto.

Seja de túnica, de terno ou de tênis caro, seja no templo ou nas catedrais do comércio, os shoppings e as plataformas digitais, há vendilhões profanando em nós, que somos templos (1 Cor 3, 16), o que há de mais sagrado.

Não há salvo-conduto. Estejamos com os olhos abertos, atentos ao nosso preço, a nossos “propósitos” (todos os temos). Há comerciantes à nossa procura, querendo ganhar e vender. Estão disponíveis para o câmbio.

Há fariseus pregando, escrevendo livros, programando uma nova postagem linda sobre “valores” de diversidade, de sustentabilidade e de inclusão no Instagram.

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