Opinião: Onã | Por Paulinho do Boi

Espetáculo realizado na FLONA Paraopeba / Foto: Thaís Eduarda
Espetáculo realizado na FLONA Paraopeba / Foto: Thaís Eduarda

“Para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve” (dito popular)

Amigos, leitores, seguidores, artistas, não artistas, alunos, todos.

Atentemo-nos ao dito popular acima com intuito de calçar o raciocínio desse reles escriba. No mês de setembro fui até a cidade de Paraopeba para assistir ao espetáculo teatral Onã protagonizado pela atriz setelagoana Thais Eduarda. O local escolhido para encenação foi a Floresta Nacional, que existe bem no centro da cidade, conservada e guardada pelo governo federal através do Instituto Chico Mendes, e leva o nome de FLONA. Recomendo a visita.

Thaís Eduarda, atriz / Foto: divulgação
Thaís Eduarda, atriz / Foto: divulgação

Em meio a transição de biomas, da mata atlântica para o cerrado, surge uma clareira guarnecida por um pequeno escritório com espaço para palestras e aulas sobre meio ambiente. Na frente um enorme terreiro transporta nosso imaginário para um quintal, onde podemos brincar e ser livres. Cenário natural pra lá de especial para dar vazão a um espetáculo teatral. Pois bem. O sol de primavera, daquela manhã, foi apaziguado pelas sombras dos arvoredos centenários que cobriram o espaço. Uma sensação de frescor que ar-condicionado nenhum tem tamanha capacidade fazê-lo.

Em meio a este cenário surge a personagem Onã amparada pela trilha sonora, concebida ao vivo, do músico setelagoano, ator e sonoplasta Rafael. Atabaques, caxixis, violão, pau-de-chuva e outros instrumentos, nos ajudaram a entrar na história, escrita pela dramaturga setelagoana Mileide Moura, de uma menina que saiu pelo mundo em busca de sua mãe que virou peixe. Dessa forma fomos envolvidos, nós plateia, em aventuras mil, por cidades que cresceram ao redor de lagoas e rios. Seguimos o curso d’água, formado em nosso imaginário, tomados por uma reflexão existencial profunda.

Fomos ao futuro com uma mãe fruto de inteligência artificial, viajamos pelo presente, reforçando a necessidade do cuidado com meio ambiente. Mas, paramos no passado onde o espetáculo nos aponta a necessidade de preservação da cultura popular e os saberes tradicionais de nosso povo. Através de um teatro decolonial vivemos o lúdico em cada cena, pautados pela direção fina e sensível de Anair Patrícia, vislumbrados pela iconografia de Sarah Vá Moreira, com cenário e figurinos detalhados demais para escrever aqui.

Espetáculo ao ar livre, em meio à natureza / Foto: divulgação / Thaís Eduarda
Espetáculo ao ar livre, em meio à natureza / Foto: divulgação / Thaís Eduarda

Naquele dia, naquele lugar, no espetáculo teatral Onã, me permiti misturar com as crianças da plateia. Me vi em um quintal com a doce lembrança de menino que trazia consigo a interjeição de que “quando eu crescer eu vou ser… Vou seguir meu caminho…” acabou o espetáculo e a realidade me atropelou em meio aos olhos brilhantes das crianças que foram até a atriz para tirar fotos. Uma lágrima desceu junto a lembrança dos tempos em que Thais Eduarda era minha aluna em um projeto social. Olhos grandes, sorriso largo, sonhos e esperanças naquela alma pequena… Indaguei em respiros: Por onde andei Onã me ajudou.

“Para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve”

Ando sem preguiça de amar…


Paulinho do Boi – Quintal Boi da Manta – novembro de 2025

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