Banca também é cultura pop: um mapa afetivo de Sete Lagoas entre papel as telas | Coluna

Antes da internet, as bancas de revista eram a nossa janela para o mundo — e também o nosso rito de passagem. Havia o cheiro de papel e tinta fresca, o estalo do plástico ao abrir um encalhe, o jornaleiro que nos chamava pelo nome, as moedas alinhadas no balcão e a promessa de novidade toda sexta-feira. E tinha o domingo: as bancas abriam pela manhã, e, depois da feira, ia-se com calma “dar uma olhada”, fosse para pegar o jornal, folhear um gibi novo ou garimpar uma revista. Dali vinham as notícias de cinema, profissão e música; ali se folheavam Autoesporte, Guitar Player, Rock Brigade e Roadie Crew; ali os quadrinhos apresentavam autores, adaptavam filmes, transformavam literatura em HQ e mantinham vivos os universos de Marvel e DC.

Banco do Jaime – Crédito: Djhéssica Monteiro

A banca, mais que ponto de venda, era um dispositivo de mediação cultural e de convivência: fazia circular ideias, tendências e conversas que transbordavam o bairro e nos conectavam a um mundo maior. Por isso, não é exagero dizer que “banca também é cultura pop” — e que seu esvaziamento empobrece a vida urbana e apaga um pedaço sensível da memória de uma geração.

Em Sete Lagoas, essa história tem geografia própria. Cada leitor traça o seu mapa afetivo: a banca do Ciro, embaixo do Banco do Brasil; o saudoso Jaime, em frente ao Colégio Dom Silvério, na prainha do Pão de Queijo; a banca da Glória; a banca da Feirinha, em frente ao hotel; a antiga Assis Revista, no Boa Vista, onde se garimpavam usados; e a Agência Costa, com sessões por tema. Para mim, esse mapa tem rostos e vozes: fiz uma amizade grande com o Ciro — ele me chamava de longe quando “chegava coisa boa”, guardava o Superman e as edições de heróis que sabia que eu não perderia, contava causos das madrugadas de fechamento e dos tempos em que a fila dobrava a esquina.

O Jaime, que a memória abraça com carinho, gostava de conversar sem pressa, contava sua vida em capítulos, sabia quem era da turma dos gibis de herói e tinha um trato especial com a gente: separava encalhe, avisava de lançamento, quebrava o galho quando o bolso de estudante ficava curto. Esses lugares eram mais que endereços: eram paradas obrigatórias de um circuito que ensinava a ler o mundo. Tinha o dia do lançamento, o dia do encalhe, o dia de voltar “só para ver o que chegou”, e a conversa com o jornaleiro — uma curadoria afetiva que recomendava títulos, aproximava vizinhos e, muitas vezes, iniciava leitores. Para muita gente, especialmente no fim dos anos 1980, a banca foi a porta de entrada para o hábito da leitura: o gibi semanal, a revista de palavras cruzadas, o fascínio por fotografia ou música — e, de brinde, novas amizades.

A banca, mais que ponto de venda, era um dispositivo de mediação cultural e de convivência.

A partir dos anos 2000, esse ecossistema começou a se reconfigurar. De um lado, jornais e revistas migraram para o digital, e a luz do celular tomou o lugar da leitura na calçada. De outro, os quadrinhos se reposicionaram: tiragens menores, papel de alta gramatura, capas duras, boxes, edições de colecionador. O gesto de compra mudou de natureza — o que era aquisição semanal “de banca” virou compra ocasional “de livraria” ou de e-commerce, com preços mais altos e público mais segmentado. Para sobreviver, muitas bancas diversificaram: acessórios de celular, serviços de cópia, recarga, pequenos eletrônicos. Eu vejo isso no balcão do Ciro: pendurados como se fossem enfeites, cabos e capinhas dividem espaço com uma fileira mais tímida de revistas; a mão vai sozinha aos gibis, mas o preço muitas vezes repele o leitor iniciante; a compra por impulso rareou e a descoberta casual ficou mais rara — aquela revista que você não procurava e mudava o seu mês. É um movimento compreensível, necessário até; sem ele, a porta fecha. Mas toda vez que a vitrine se enche de eletrônicos e a pilha de papel diminui, parece que um caderno de memórias se fecha um pouco também — e a cidade perde um pedaço do seu jeito de conversar.

Em Sete Lagoas, essa transformação tem rosto e endereço — e, para muitos de nós, também tem voz. Ciro continua sendo o ponto de referência, o relógio afetivo do centro: é ele quem marca os lançamentos, quem segura “aquele” gibi para o leitor certo, quem lembra o que a gente coleciona e, entre uma venda e outra, conta as histórias das madrugadas de jornal e das filas que já dobraram a esquina. Jaime — cuja ausência ainda pesa — permanece vivo na lembrança da conversa em frente ao Dom Silvério, naquela prainha do Pão de Queijo onde muita gente descobriu o prazer de ler e onde a “turma dos heróis” sempre ganhava um trato especial: um encalhe reservado, um aviso discreto de novidade, um desconto salvador para o bolso curto de estudante. A Glória e a banca da Feirinha seguem costurando a paisagem urbana, fazendo a ponte entre leitores, turistas de hotel e trabalhadores do entorno; a antiga Assis Revista, no Boa Vista, e a Agência Costa evocam um tempo de curadoria acessível, com prateleiras por interesse e a bênção dos usados — aquela economia que ampliava repertórios. Com a alta dos preços e a migração do catálogo para lojas especializadas e o e-commerce, parte dos leitores ocasionais se afastou. E, com eles, perdemos algo difícil de repor: a descoberta casual, o encontro imprevisto com um assunto novo, o impulso de levar para casa uma revista “só porque abriu bem na matéria que te pegou”. Eu sei — porque vivi — que, sem esse tropeço feliz, a cidade fica um pouco menos conversada.

É um movimento compreensível, necessário até; sem ele, a porta fecha. Mas toda vez que a vitrine se enche de eletrônicos e a pilha de papel diminui, parece que um caderno de memórias se fecha um pouco também — e a cidade perde um pedaço do seu jeito de conversar.

Ainda assim, a história das bancas não precisa ser escrita como um obituário. Se por décadas elas funcionaram como infraestruturas populares de convergência — conectando conteúdos, comunidades e curiosidades —, hoje podem se reinventar como pequenos equipamentos culturais de bairro. Não falo de grandes reformas, mas de gestos possíveis: uma curadoria temática que muda mês a mês (música brasileira em agosto, ficção científica em setembro, fotografia de rua em outubro); consignação de editoras independentes e zines locais, para que a vitrine volte a surpreender; clubes de leitura de HQ com encontros quinzenais, retomando o papel do jornaleiro como mediador; parcerias com escolas para feiras rápidas no horário da saída, de preferência aos sábados e nos domingos de manhã — integrando o circuito da feira livre ao velho hábito de “dar uma olhada” nas novidades; exposição de capas históricas que reconecte memória e calçada; até um “plantão de recomendações”, quando o próprio jornaleiro apresenta três apostas da semana e indica por onde começar. O digital pode somar: um QR code colado no balcão leva à playlist da curadoria, ao calendário de lançamentos e a um grupo de WhatsApp para avisar de chegadas e encontros. Nada disso neutraliza a pressão econômica — seria ilusório dizer o contrário. Mas cada pequena ação devolve à banca sua função social: voltar a ser ponto de partida, e não apenas ponto de venda; devolver à cidade o hábito de conversar em torno do papel; recuperar, com cuidado e calor humano, a velha serendipidade que nos formou como leitores.

No fim, talvez esse seja o aprendizado mais valioso quando falamos de cultura pop no cotidiano: por trás de cada grande fenômeno — filmes, séries, álbuns, heróis — houve sempre um gesto miúdo e repetido de folhear, conversar, experimentar. A banca organizou esse gesto durante décadas e ajudou a fazer de Sete Lagoas uma cidade leitora. Hoje, porém, muitas delas resistem com pilhas de capinhas de celular, recargas, serviços de xerox e tíquetes da faixa azul — soluções práticas, sim, mas que pouco dialogam com o velho ritual de domingo depois da feira, quando a gente passava para “dar uma olhada”.

A banca organizou esse gesto durante décadas e ajudou a fazer de Sete Lagoas uma cidade leitora.

O que sobrou para nós? A frieza das megastores de shopping, o atendimento apressado, metas no lugar da conversa; e a lembrança dos kits de montar que chegavam em fascículos — mês a mês, peça a peça, ensinando paciência, curiosidade e sonho. Entre o que tivemos e o que temos, fica o convite à reflexão: queremos apenas balcões de utilidades ou espaços de encontro? Ao preservar a memória de Ciro, Jaime, Glória, Feirinha, Assis Revista e Agência Costa — e ao atualizar sua lógica de convivência — mantemos viva a ideia que nos trouxe até aqui: banca também é cultura pop. E continuará sendo sempre que a cidade se reconhecer no papel, na conversa e na curiosidade que recomeça.


Fechando a semana, aqui vão minhas dicas de cultura pop — do cinema ao livro — no tom amigo de sempre. Se curtir alguma, me conta depois! 😊

🎬 Cinema

  • Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba — Castelo Infinito
    Sessão pra ver em tela grande: clímax visual e emocional do arco. Se puder, escolha sala com bom som — é espetáculo.
  • Downton Abbey: O Grande Final
    Drama de época caprichado, aquele conforto elegante para quem acompanha a família há anos.

📺 Séries / Streaming

  • A Namorada Ideal (The Girlfriend)Prime Video
    Thriller psicológico de virar a noite. Narradores pouco confiáveis e tensão crescente.
  • Helluva BossPrime Video
    Animação adulta, humor ácido e ritmo frenético. Ideal pra maratonar sem culpa.
  • A Paris ErradaNetflix
    Comédia romântica levinha, perfeita pra “desacelerar” no meio da semana.
  • AKA Charlie Sheen — documentário
    Para quem curte bastidores da cultura pop e fama — papo reto sobre altos e baixos.

🎧 Música

  • Ed Sheeran — Play
    Pop redondo, refrões que grudam e produção caprichada. Bom termômetro do mainstream.
  • Frost Children — SISTER
    Hyperpop inventivo, divertido e cheio de ideias de estúdio — vale pela ousadia.

🗯️ Quadrinhos

  • Hirohiko Araki — Baoh: O Visitante (Panini)
    Peça “vintage” do autor de JoJo: energia oitentista e inventividade visual.
  • Norio Nanjo & Takayuki Yamaguchi — Shigurui vol. 2 (Pipoca & Nanquim)
    Samurai + horror com arte impactante; leitura intensa, não para os fracos.
  • Suehiro Maruo — O Vampiro que Ri vol. 1 (Pipoca & Nanquim)
    Clássico do ero-guro, estética diferente do mainstream — amplia repertório.

📚 Livros

  • David Good & Daniel Paisner — Eu, yanomami (Record)
    Memórias que cruzam identidade, Amazônia e encontros culturais — bom para pensar o Brasil real.
  • Thomas Mann — José e seus irmãos I (Companhia das Letras)
    Releitura monumental de narrativas bíblicas; literatura para saborear sem pressa.

Caros leitores do Portal SeteLagoas.com.br, obrigado pela companhia até aqui. Se este texto cutucou alguma lembrança, me escreva: conte a sua história de banca, do Ciro, do Jaime, da Glória ou da Feirinha — vale foto de capa antiga, vale o fascículo que te ensinou paciência, vale o gibi que mudou seu mês. E, se puder, passe na banca do bairro: folheie, pergunte “o que chegou?”, prestigie o jornaleiro que segue segurando a conversa da cidade. A coluna continua aberta para sugestões e pautas; na semana que vem tem mais cultura pop, com aquele olhar carinhoso sobre o que nos forma como leitores e cidadãos.

Até já — nos vemos no papel e na calçada.


Washington Eloi Francisco
@wash_professornerd
Colunista do Portal SeteLagoas.com.br | Professor Nerd MG

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